terça-feira, 31 de janeiro de 2012


Poemas e Contos: Um conto de Iemanjá!

Era fim de tarde e aquele homem de aparência rude, mãos calejadas e pele queimada do sol chegava em casa com um saco de estopa pesado de peixes que a recém trouxera do mar.
Enquanto a esposa os levava para prepará-los (uns seriam consumidos em forma de um delicioso ensopado acompanhado de pimenta e pirão, outros seriam guardados na geladeira velha, mas potente, para serem vendidos ou trocados depois), o homem toma um banho morno pra revigorar as forças.
Sentados à mesa simples, mas farta, ele, a esposa e filha conversam sobre como foi seu dia. A mulher, cabelos longos e já um pouco grisalhos, com a beleza da juventude ainda gravada nas marcas do rosto, conta os assuntos que ouvira das outras mulheres da vila, enquanto lavavam roupa num tanque comunitário. A filha, cabelos também longos, mas negros como a noite, tez clara, olhos brilhantes e viço da juventude estampado no rosto perfeito, conta o que aprendera na escola, conta sobre os meninos que já a rondam bajulando e ri farta achando graça e dizendo que um dia ainda encontrará seu grande amor e fará sua casa ali na vila!
Com um suspiro sentido e longo, o velho “pensa em voz alta” e deixa escapar uma frase que causa susto na mãe e estranheza na filha:
- Teu amor serão todos os pescadores e tua casa será o grande mar...
O olhar espantado e repreensivo da mãe faz com que o pai se cale e siga comendo seu jantar em silêncio, enquanto a filha, marota e faceira, parece nem ter escutado esse assunto.
Depois do jantar, sentados na sala em frente à televisão, distraídos com um programa qualquer, a filha lembra-se de contar fato estranho que ocorreu naquela tarde, enquanto vinha para casa:
- Pai, mãe, vocês não vão acreditar no que aconteceu hoje! Não sei como tinha esquecido de contar! Vinha para casa no final do dia, caminhando pela beira da praia, quando de repente vi um burburim! Aglomeravam-se na areia ao redor de um homem vários desses turistas que nos visitam todos os anos nessa mesma época! O homem chorava desesperado, apontando pro mar, sem conseguir dizer claramente que alguém que lhe era muito caro estava lá dentro! Num impulso, caminhei mar adentro preocupada em ver o que acontecia e quanto mais eu seguia, mais as águas ao meu redor iam se acalmando. Era tão engraçado o modo como de um minuto pro outro aquelas ondas revoltas e altas se transformavam em marolinhas! Eu ri sozinha e pensei comigo a sorte que eu estava tendo! Pois foi quando mais sorte ainda teve uma mulher que emerge na minha frente e cai nos meus braços, desacordada, mas viva! Voltei à orla com a tal mulher nos braços e todos me olhavam boquiabertos, sem dizer uma palavra. Eu achei estranho e gritei: povo, povo, me acode aqui! Imagine, pai, eu com uma mulher pesada nos braços e ninguém pra vir nos ajudar! Foi então que alguns correram na minha direção e pegaram a tal mulher dos meus braços e outros, sei lá, tão estranhos, correram de mim! Vai entender, povo doido! Só sei dizer que quando saí de dentro do mar, olhe mãe, as ondas voltaram a se rebelar! Quanta sorte eu tenho não é mesmo?!
Rostos pasmos, entreolhares arregalados, pai e mãe não deram muito assunto, disfarçando o ocorrido.
Mais tarde, já no quarto, antes de dormir, comentaram entre si:
- Sorte a dela, ela pensa... tadinha, mal pode imaginar que a sorte é nossa, por termos sido os escolhidos, não é verdade meu velho?
- É...fomos os escolhidos quando encontramos aquele pequeno ser boiando em alto mar, envolto somente por uma luz tão forte que mal podíamos enxergar... lembro-me como se fosse hoje aquela tarde em que foste comigo no barco para tentarmos mais uma rede. Que grande o nosso susto ao vermos aquele bebezinho indefeso! Maior ainda quando o retiramos do mar e ouvimos uma voz doce que vinha das profundezas do oceano e dizia:
“Eu sou Nanã e esta que tomas em teus braços é minha pequena filha, a rainha de todos os mares, a grande mãe de todos vós! Criem-na com amor e com amor eu vos recompensarei. E no momento certo ela vai retornar ao seu reino onde será feliz por toda eternidade, cuidando de cada um dos encarnados como se fossem seus próprios filhos, intuindo-lhes bons pensamentos, ajudando os pescadores na fartura de suas redes e os navegadores na clareza de seus rumos. Ela precisa viver um tempo na Terra, entre vós mortais, para entender a profundeza do ser humano e assim saber amá-lo do jeito que é, com todos os seus defeitos e suas virtudes.”
Mas não sei se podemos dizer que temos sorte, mulher, afinal, um dia ela vai retornar ao seu verdadeiro lar e nós ficaremos sem ela...
- Havemos de saber aceitar quando essa hora chegar, meu velho. Nanã prometeu nos recompensar com amor e eu confio nela, afinal, nos deu o que de mais precioso temos na vida hoje! Vamos dormir e não sofrer antes do tempo! Boa noite, meu amor.
- Boa noite, minha querida.
Apagaram a luz e trataram de tentar dormir, pois amanhã o dia ia recomeçar cedinho.
Enquanto isso, Janaina, no quarto ao lado, dormia tranqüila e sonhava com um reino de águas, onde andava vestida com um manto branco, colares de pérolas, se enxergava em espelhos brilhantes e só a paz e a alegria a rodeavam...


- Este é um conto absolutamente fictício! Eu o inventei e nada tem a ver com lendas ou a historia de Iemanjá! Apenas quis homenageá-la pelo seu dia que vem aí criando uma estória onde ela tem uma passagem na Terra!

7 comentários:

  1. Tenho certeza... Um pouco da querida Mamãe Yemanjá está presente em nossas meninas... Sem dúvida nenhuma. Principalmente a beira-mar... As crianças se enchem de Luz e alegria singulares... E essa energia flui...

    @amigodoze

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  2. Tatiane Moscon Ferreira31 de janeiro de 2012 20:17

    Lindo de mais Rô! Bela homenagem! Beijo no teu coração querida.

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  3. Amiga,eu também tenho muito respeito e carinho por nossa mãe Iemanjá, ela me transmite uma paz muito grande através do mar sagrado.
    Essa postagem é uma bela homenagem para nossa Rainha do Mar.
    Me identifiquei muito com esse texto, me lembra de uma passagem muito importante da minha vida, quando tive o meu cordão umbilical entregue no mar para Imenjá. Vale ressaltar que moro em Manaus e aqui não tem mar.
    ricardodeogum

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  4. Lindo como tudo que sai de tua cabeça e teu coração. Que a nossa Grande sempre te ilumine e abençõe.
    Ti amo.
    Obs.. teu blog está sendo muito bem visitado hein. Parabéns! (maisa)
    Grazi

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  5. Roberta,muito bonito o conto Parabéns e continue a brilhar.
    Bjs
    Toninho

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  6. Achei excelente! Tanto a escrita como a narração e o conto em si. Tinha muito tempo que não lia algo tão bom na internet. E esse é só seu primeiro conto! Não pare que você vai longe! Parabéns!

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  7. Bah Deus o livre Xu.... a intenção era emocionar??? conseguiu mtoo lindo, de primeira qualidade, me arrepiei todinha... e quem garante que esse conto não tem um fundo de verdade???
    mtoo lindo amei mesmo... parabéns, e claro não se pode esperar menos de uma pessoa linda e iluminada como vc...Te amoo
    Carol (xu)

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