Mostrando postagens com marcador CONTOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTOS. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de abril de 2013

Conto: "Fé: amar o belo é fácil!"



Um rico homem vivia muito bem com sua família, numa confortável casa. Tinha um carro do ano, fazia viagens frequentemente, filhos na faculdade. Aos domingos todos se reuniam ao redor da grande mesa de churrasco, cada qual querendo mais contar sobre sua semana, a carne, a bebida e a alegria eram fartas.

O homem era muito religioso, católico praticante, não perdia uma missa de domingo, contribuía rigorosamente com o dizimo, ajudava nas benfeitorias de sua paróquia e participava das campanhas de amparo aos necessitados. Era extremamente grato à Deus por ter sua vida tão perfeita e tão feliz. Não cansava de propagar as bênçãos do senhor que o havia dado uma família, saúde e prosperidade.

Em determinado momento de sua vida, por um golpe do destino, em um empreendimento errado, perdeu tudo. Foi à falência total, ficando apenas com o imóvel que morava, o carro e nenhuma economia mais. Não tinha mais sua empresa, seu sustento e nem como continuar proporcionando a todos o conforto de sempre.

Caiu em desesperada depressão. ”Como é aquilo tinha acontecido? Lutar pra que agora? Fora enganado, ludibriado...”.

Amigos, vizinhos, parentes, todos vinham consolá-lo. Um oferecia um ombro, outro uma palavra, houve que trouxesse um emprego. Mas nada o tirava daquela apatia. Não conseguia enxergar em sua frente todos aqueles que tentavam ajudá-lo. Sentia-se vitimado, injustiçado, atraiçoado.
O padre fez campanha de arrecadação à seu favor, os filhos arranjaram emprego para ajudar na casa e pagar as faculdades, a mulher passou a fazer docinhos pra fora, todos de alguma maneira tentaram contribuir para que ele retomasse o gosto pela vida.

Mas tudo foi em vão, a tristeza tomou conta daquele homem de uma maneira que nada mais tinha graça. Chorava, apenava-se de si mesmo, não tinha vontade de sorrir, de falar, de olhar à sua volta.

O tempo foi passando e eis que subitamente ele teve um mal estar e morreu.

Chegando à pátria espiritual, logo de cara encontrou o mentor que o acompanhava. Não pode crer quando se deu conta de seu novo estado! E foi logo questionando:

Como é que ele, que sempre fora tão digno e honesto, que sempre acreditou em Deus, que sempre ajudou ao próximo, havia caído daquela maneira? Como é que Deus o abandonou na hora em que ele mais precisava?? Não era justo que isto tivesse acontecido!

E então, com olhar sereno e piedoso, o mentor respondeu:

- Justo?

O que não foi justo foi a sua falta de fé para com Aquele que, sobretudo, esteve ao seu lado.
Amar o belo é fácil. Correr com as duas pernas é fácil. Acreditar em Deus quando tudo está perfeito é fácil também.

Mas a fé, a verdadeira e pura fé, se fortalece nas horas de dificuldades, nos momentos de tempestade.
Quando tudo aconteceu em sua vida o criador tratou de enviar muitos de seus discípulos para ajudá-lo a superar esta crise. Mas você fechou-se dentro de sua própria falta de fé e preferiu se sentir uma vítima da situação à lutar para mudá-la.

Todos ao seu redor agarraram-se com todas as forças à cada raio de luz que o Senhor fazia brotar por entre as fretas da vida, mas você cerrou os olhos para o auxílio do Altíssimo.

Os planos do Senhor eram amplos para você. Se tivesse a verdadeira fé, e acreditasse que Ele jamais o deixaria, teria visto o mar de incentivos que estava recebendo. Teria confiado e lutado, teria aceitado o emprego que seu amigo Jorge ofereceu na empresa dele, teria prosperado novamente à ponto de comprar um grande percentual das ações da mesma, tornando-se novamente o homem rico e farto que sempre foi.
Neste meio tempo teria reconhecido o valor das amizades verdadeiras, teria visto o quão bem criados estavam seus filhos, o quão fiel e dedicada era sua esposa, o quão parceira a atenciosa era a paróquia à que pertencia. E principalmente, teria entendido o valor de se ter fé.

Não tenha fé somente quando tudo está bem, não grite sua fé apenas quando as coisas correm da maneira que você quer e espera. A verdadeira crença é demonstrada quando confiamos que nos momentos de maior tempestade, Deus estará ali com seu manto, nos mantendo protegidos para que somente as gotas de ensinamento nos alcance.




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Carta ao Ex!


“Prezado...” não, prezado não. É muito formal e, de mais a mais, não o prezo mesmo.

“Caríssimo...” ah não! Caríssimo? Caríssimo é algo de valor. Até admito que ele tenha lá um certo ar de grife, com aquele cabelo grisalho, aquele olho rasgado e aquele perfume importado,  mas daí a ele me ter algum valor, tá longe!

“Tom...” também não pode ser. Apelido é algo próximo que se usa com quem se tem intimidade. E esta, definitivamente, não temos mais.

“Sr. Antonio...” não, não... apesar dos meus quarenta anos, nunca fui fã dos coroas. Chamá-lo de senhor me remeteria a uma verdade que não quero reconhecer: já somos sim coroas, ele e eu.

 “Antonio...” é! É o seu o nome! Ficou bem melhor assim, até porque há tantos e tantos anos não o chamo pelo nome!

Primeiro era o apelido comum: Tom! Depois foram os apelidos íntimos: negro, amoreco, leãozinho (tigrão em alguns momentos...). Por ultimo já eram os apelidos doloridos: canalha, cretino, cafajeste!
É isso, encontrei a maneira certa de chamá-lo: pelo nome próprio.
Como se faz com o rapaz da farmácia, alguém que você conhece, mas não tem nenhum vinculo e nem quer ter.

Chamá-lo pelo nome é como cortar a fita que inaugura essa nova fase em nossas vidas.
Uma fase em que não comeremos cachorro quente na madrugada depois de uma noite de festa, não faremos mais piquenique no parque nas tardes de domingo, não veremos mais filme embaixo do edredom nas noites de inverno, não nos ligaremos muitas vezes por dia pra contar os mínimos acontecimentos, não dividiremos mais a mesma taça de vinho antes do jantar...

Essas lembranças até me deixariam triste agora se não viessem acompanhadas de outra fase. Uma que espero não viver nunca mais...
Fase das descobertas, das desilusões, de entender que ninguém pertence à ninguém e que nada é eterno. De ver a mala sendo arrumada, de tomar decisões práticas como mudar o nome na carteira de identidade. De ter que dividir as fotos e os livros, de fingir que está tudo bem só pra não dar o braço a torcer até a porta se fechar...

Engraçado agora poder pensar em tudo isso sem chorar, sem sofrer, sem me abalar! Tudo passa mesmo nessa vida, bem já dizia minha vó...
Tanto passa que na verdade já não lembro mais o que ia escrever a ele!

Ah, quer saber? Deixa pra lá! Vou pegar a minha bolsa e correr que já to atrasada pro meu pilates!






quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O que é ser tradicionalista?




Tem algum tempo que penso em escrever sobre essa nova paixão que tenho em minha vida: o Tradicionalismo!
Queria tentar quebrar alguns tabus, da mesma maneira como se quebraram pra mim.

Os que me conhecem sabem que sempre fui de noite, de festa, de balada, de mto rock clássico, pop rock e pagode pela madrugada afora! Eclética que só, nunca dispensei tb um bom e velho sertanejo de raiz, um reggae na praia, uma MPB ou um blues ao bom estilo Chuck Berry!

Mas definitivamente, eu não simpatizava com a música gauchesca. Alias, com nada da cultura gaucha. Tinha pra mim que os tradicionalistas eram homens grosseiros e bêbados, fedendo à fumaça de churrasco e mulheres submissas e apáticas. A parte da fumaça de churrasco não deixou de ser verdade, viu, mas agora ao invés de “fedendo a” me cai melhor o termo “cheirando a”.

Foi então que há uns quatro anos atrás o Ataliba (meu marido) começou a frequentar o Harmonia com o primo Marcelo. Tortura pra boneca aqui! Meu salto entrava naquele barral, minhas roupas e meus cabelos ficavam defumados, a gente caminhava feito uns condenados naquele parque, eu não conhecia musica alguma daquelas que na verdade me doíam aos ouvidos, enfim, a treva! Neste meio tempo começamos a frequentar um piquete (tipo de um QG Gaúcho) de uma coroa meio bipolar que às vezes nos tratava super bem, outras nem nos cumprimentava e só pensava em quanto ia vender a cerveja ou locar o espaço da churrasqueira. Esse piquete da coroa era meio fim de carreira, só ia uns tiozinhos de bombacha xadrez e colete combinando, quase sem dente na boca e que enchiam a cara de trago. A treva de novo!

O que me consolava era a presença de uma amiga e comadre querida (minha grande parceira até hoje) a Aline, esposa do primo, que me acompanhava na indiada. Mas nós íamos odiadas, ficávamos lá com umas caras de bunda, mas na parceria com os maridos.

Detalhe importante: nossos filhos, os meus e o dela, alheios a todo o resto, AMAVAM “ir pros gaúchos” como eles diziam. E aí, caro leitor, eu pergunto: que mãe não se rende a um sorriso de um filho?

Mas o Patrão Velho (Deus) olhou pra baixo e no ano seguinte ao piquete da coroa bipolar nos conduziu a um piquete novo. Um piquete de verdade, de gente que ama a tradição e que não tá lá dentro pra ganhar dinheiro. Foi então que descobri o prazer de ser tradicionalista!

O Piquete Dois Amigos é como uma grande casa da gente. O patrão (responsável pelo piquete), seu Zé, tem o sorriso mais acolhedor que eu já vi na vida e a patroa, Dona Jurema, é aquela mãezona/amigona que tanto te serve um prato de comida campeira da melhor qualidade quanto se senta contigo e toma uma cerveja parelho! E junto desses dois tem o resto da família, as filhas, genros, o filho, amigos de todas as idades e de todos os lugares, gente que vai se chegando e dali não sai, ano após ano.

Desse ano em diante passamos a frequentar o piquete durante o ano todo e não somente no setembro. Deixamos de ser os setembrinos (gaúchos só da época do Harmonia) e passamos a incorporar a cultura.

E foi aí que descobri gente alegre, homens guapos (bonitos) e xiruas (mulheres) lindas, família reunida, as crianças participando de tudo o que fazemos desde um churrasco ao meio dia até um baile à noite, sem que precisemos depender de ninguém pra cuidá-las. Descobri um mundo de simplicidade, onde matear (tomar chimarrão) ao redor da churrasqueira jogando conversa fora vale mais do que qualquer seção de terapia com o psicólogo mais renomado, onde as músicas são densas com letras que falam de paixão, de campeirismo (vida no campo) e da incrível relação entre homem e natureza, onde o xucrismo (estilo de vida sem doma, sem formalidade) é sinal de autenticidade e transparência.

No piquete a gente se reúne sem máscaras, sem vaidades, sem se importar com a conta bancária do vivente (o outro) e o respeito e a relação familiar são prioridades. Ninguém se importa de cheirar a fumaça, porque nossas pilchas (indumentária típica) são feitas pra isso, ninguém se importa de bostiar (pisar nos cocôs de cavalos, vacas, etc) as botas, pois elas são feitas pra isso. Todo mundo pode andar com a faca pendurada na guaiaca (cinto próprio pra isso) pois ela só será usada pra cortar aquele costelão doze horas (costela que leva mesmo doze horas pra ser assada). A comida campeira é farta e deliciosa, como a boa e velha vaca-atolada (carne de panela cozida junto do aipim), ou o carreteiro de charque, o feijão mexido, etc...  e o único intuito disto tudo é nos reunirmos pra ser feliz, pra curtir e também pra reverenciar àqueles que em 1935 lutaram bravamente por um ideal e que assim viviam naquele tempo.

Sobre o Parque da Harmonia, eu entendo que muita gente não goste. Primeiro porque ser setembrino é chato mesmo. Setembrino não tem pouso e nem intimidade com aquele universo. Segundo porque as pessoas tem uma ideia errada de que ir pra lá é ir pra caminhar feito loucos, pra cima e pra baixo, enquanto o prazer está em parar em algum lugar pra compartilhar com amigos. Terceiro porque “o barro, o barro, o barro”... aff! Taura (pessoa valente, destemida) não se importa com o barro, porque não estamos lá pra olhar se alguém ta limpinho e brilhante ou embarrado até as canelas, estamos lá pra olhar no olho e apertar a mão e dividir um gole do butiá (cachaça de butiá) mais pegado.

Tem gente bêbada? Tem! Como em qualquer outro lugar (balada, carnaval, beira de praia). Tem gente grossa? Tem! Como na fila do supermercado ou no caixa do banco. Tem gente feia? Tem! Como agora mesmo do seu lado deve haver alguém! É tudo perfeito? Não! Tal qual não é em lugar algum do planeta, nem no Vaticano e nem na casa da gente.
 Mas tem gente de valor, tem filhos participando ativamente de atividades com seus pais, tem gente simples independente de quanto ganha, tem sempre um pouco de cultura ou um causo (conto gauchesco fictício ou não) a ser contado.

E fora isso tudo, tem no ano inteiro alguma atividade, algum encontro, uma cavalgada (encontro de vários cavaleiros), uma tertúlia (encontro de pessoas para cantar, recitar poemas, contar causos), um churrasco, um baile, etc...

Buenas, espero que tenha conseguido passar um pouquinho do que é este universo pra quem me lê. Não tenho a pretensão de convencer ninguém a nada (embora sem duvida eu adoraria que meus amigos participassem mais deste meu mundo). Só queria poder dizer que o preconceito é o maior mal da humanidade. Enquanto conceituamos previamente sem conhecer algo ou alguém perdemos muitas vezes oportunidades únicas de experiências diferenciadas e muitas vezes de sucesso.

Não posso escrever mais, porque creio que tem gente que já abandonou no meio do caminho! Mas preciso responder à pergunta título deste post: o que é ser tradicionalista?

Ser tradicionalista é encontrar o prazer nos momentos mais simples, valorizando a cultura e o modo de vida dos precursores do nosso estado. 



**Fora o bom e velho vestido de prenda e a pilcha masculina tradicional, existe a 'modinha Harmonia', porque gaúcho é grosso, mas tb é fashion tchê! eheheheh




**Assista abaixo à algumas das minhas músicas preferidas, vai te encantas?!













sábado, 25 de agosto de 2012

Controvérsia


Ajoelhada aos pés da imagem de barro mal feita, lágrimas rolavam sobre o rosto castigado pela rudez de uma vida sofrida.
Na seca maldita do sertão, aquela não era uma cena incomum.
Incomum era o sentimento que latejava no peito daquela mãe, que chorava a morte de um dos muitos filhos ao mesmo tempo em que, intimamente, agradecia por ter uma boca a menos para alimentar, um não a menos para dizer...


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Amargura




Dizem por aí que decepção não mata, ensina a viver.
Ensina à quem se o decepionado de hoje é o decepcionador de amanhã?
Não me venha com ditos populares quando meu coração sangra 
e a única coisa que consigo engolir neste momento é outra dose de whisky.

Decepção mata sim, a começar pela ingenuidade da gente.






segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Mini Conto: Porque assim são as mulheres...


Existia um anel que ficava em cima do armário de um banheiro feminino frequentado por muitas mulheres.
Todos os dias aquelas mulheres olhavam praquele anel, ali, parado, inerte. 
Nenhuma delas achava graça alguma nele.
Até que um dia uma mulher o achou lindo. Pegou, experimentou no dedo e desejou tê-lo.
À partir deste dia, todas as outras mulheres passaram a desejar o anel mais que tudo na vida.
Não prestavam atenção em mais nada, nenhuma outra jóia as atraía, precisavam: DELE.
Passaram a viver numa silenciosa disputa.
Um dia batom, no outro perfume, um dia salto alto, no outro decote.
E assim faziam elas pra tentar conquistá-lo e o levá-lo como prêmio.
O final dessa história? Ninguém sabe.
Mas todos sabem que ela é verdadeira, porque assim são as mulheres... ;)



segunda-feira, 7 de maio de 2012

O que realmente tem valor na vida: um conto espirita

Honorato tinha quarenta e cinco anos e uma filha de dezoito. Amava aquela menina sobre todas as coisas na face da Terra. Não tivera outros filhos e nem queria, Laís o preenchia de uma maneira única...
Ele tinha uma posição econômica farta. Dono de uma empresa muito bem sucedida, desde sempre criou a menina com todo o luxo, escolas particulares, atividades extras diversas, clube, viagens, eventos. Era um excelente pai, atencioso e preocupado, entretanto, valorizava muito o ter, o poder, o status, o material. E ensinou a mesma coisa para Laís a vida toda.
Eis que um dia Laís se apaixonou por um rapaz. E este não era da sua mesma posição social. Era o balconista de uma farmácia que ela costumava frequentar...
O amor entre os dois foi imediato! Como dizia a canção “e mesmo com tudo diferente veio mesmo de repente uma vontade de ver e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia como tinha de ser.” Mas diferente da letra da música, a historia não teve o mesmo final feliz.
Preocupada com o que o pai pensaria desta relação, Laís começou a entrar numa neurose doentia. Precisava separar-se do balconista. Precisava não pensar mais nele. Um rapaz simplório e sem estudos não merecia toda sua atenção daquela maneira!
Mas quem disse que ela conseguia se o coração já estava tomado de paixão?
E o conflito interno a enlouquecia dia após dia... Pensava no rapaz, queria seu abraço, seu carinho. Pensava no pai, sentia vergonha por não lhe proporcionar o genro que sempre sonhou.
E nessa angustia alucinante, Laís, acostumada a  ter sempre tudo o que queria na vida, não soube lidar com a necessidade de escolha. Sentindo-se pressionada, achou melhor por fim à própria vida, a ter que optar entre o querido pai e seu grande amor.
O chão saiu dos pés de Honorato quando um telefonema o avisou que a filha havia bebido veneno no banheiro da faculdade e fora encontrada já sem vida.
Sem vida ficou o mundo dele... secou suas lágrimas, acabou-se em desespero... a esposa, como mãe também sofria muito a perda inesperada de sua princesinha, mas nada comparava-se ao martírio vivido por Honorato.
Foi então que ele mandou construir o maior mausoléu que o cemitério daquela cidade já vira. Puro mármore, puro granito, fotos enquadradas, flores e mais flores. E ali ele passava seus finais de semana, limpando, arrumando, enfeitando, conversando com a filha morta, na ilusão de estar fazendo algo por ela.
A mãe da menina voltou-se à caridade. Todo o glamour de antes perdera a graça e dona Marta passou a cuidar de crianças carentes, na esperança de preencher o vazio deixado por Laís.
Muitas foram as vezes que ela convidou Honorato à acompanhá-la. Muitas foram as vezes que tentou mostrar à ele o quanto haviam necessitados que podiam se beneficiar de sua atenção. Mas ele não queria saber de mais nada. Até dava dinheiro para as ações sociais, mas não envolvia-se, não enxergava ao seu redor nada além do mausoléu da filha.
Os anos passaram, dona Marta enredou-se cada dia mais com a caridade, assumiu famílias pobres onde custeou estudo e sustento das crianças e a saudade da filha era amenizada por cada sorriso que recebia em forma de gratidão.
 Foi então que com setenta anos Honorato faleceu. Teve um enfarto fulminante e serrou os olhos para sempre.
Já no plano astral, quando acordou para a verdadeira vida, a primeira pergunta ao mentor que o acompanhava foi:
- Onde está minha Laís? Posso vê-la? Preciso saber se ficou feliz com seu castelo que construí! Quero abraçá-la, quero beijar-lhe as faces, quero matar toda minha saudade da minha bonequinha!
Foi então que o mentor o chamou para conversar e explicou:
- Honorato, embora tenha cometido o pior de todos os pecados, o suicídio, sua filha recebeu uma oportunidade muito especial que é retornar brevemente após sua chegada à Terra. Reencarnou poucos meses depois do acontecido, com duas missões:
A primeira resgatar a falta grave ao tomar o veneno quando se deixou sucumbir à fraqueza e não tentou lutar por seus objetivos.
A segunda, ensinar-te à amar menos o material e mais ao teu semelhante, seja ele da condição financeira que for.
O coitado ficou desolado... mas então ela já havia reencarnado? Era verdade mesmo essa coisa que os espíritas falavam sobre nascer novamente?
E o mentor continuou:
- Por ter atentado contra a própria vida tomando veneno, sua filha destruiu suas cordas vocais do periespirito e por isso, retornou à Terra como pequena muda, filha de pais muito humildes, quase sem condições de criá-la.
Sua esposa esteve junto de sua filha por todos estes anos, amando-a e ajudando-a ainda que sem saber quem era, pois Laís está em uma das famílias que dona Marta assumiu em caridade.
Muito se tentou que você tivesse contato com ela. Isso teria acalmado o seu coração e ao mesmo tempo o teria ensinado o valor do próximo, seja ele rico ou pobre.
Mas tudo foi em vão, pois te tornastes obsecado por aquele castelo frio e sombrio que construístes para uma vida que não estava mais ali, naquele corpo.
Muitos são os que se iludem achando que belas flores e belas lápides fazem alguma diferença ao ente querido que já se foi.
Poucos os que entendem que estender a mão ao próximo mais necessitado é a maneira mais certa de se preencher o coração.
Mas não sofras nem te condenes Honorato. Vais renascer também daqui há alguns anos, desta vez como filho da tua filha, em condições financeiras bem restritas. E quem sabe assim ela consiga cumprir a sua missão e te ensinar o que realmente tem valor na vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Poemas e Contos: O Flagrante Invertido


Eva tinha uns quarenta anos, cabelos negros e longos, coroa enxuta, bonita, bem cuidada. Os filhos já estavam adultos e não moravam mais com ela e Joca. Mas o tanto que Eva tinha de bonita, tinha de chata! Era do tipo fuxiqueira, que cuidava da vida de toda vizinhança e enlouquecia a cabeça de Joca falando deste e daquele.

Adorava contar sobre as vizinhas que traíam descaradamente seus maridos. Saiam às três da tarde com a desculpa de que iam pro cabeleireiro e na verdade iam era pro motel passar tardes de luxuria! Gabava-se com gosto dizendo à Joca que mulher mesmo era ela, cuidava dele, cuidava da casa, cuidava de tudo e não colocava um par de chifres para enfeitar a sua testa!

E Eva falava! Como falava! Quando começava a especular a vida alheia nunca mais parava! E Joca fingia que ouvia, fingia que concordava, fingia que estava ali, enquanto lia o jornal.

Certa tarde Eva foi ao salão. Passou horas lá dentro. Fez pé, mão, limpeza de pele. Ao sair, eis que Eva vê, ou pensa que vê, o carro de Joca entrando num motel próximo.

Enlouqueceu! Correu feito doida sozinha pela rua no sol escaldante do meio da tarde e foi até bem próximo do carro que ainda estava parado na recepção. Cretino! – pensou ela! Não sabia a placa do carro de Joca, nunca prestou atenção nisso, nem mesmo sabia dirigir. Mas era ele, era sim, a mesma cor, as mesmas rodas, o mesmo filme escuro nos vidros e principalmente: o mesmo adesivinho da família na traseira. Cretino! – pensou de novo – levando a nossa sagrada família pra dentro de um lugar daqueles! Ela o odiou profundamente e fantasiou com detalhes a mulher que deveria estar no banco do carona. Uma perua nojenta, bem mais nova e com marquinhas de biquíni que aparecem pra fora da calça de cós baixo. Enauseou-se!

Não perdeu tempo! Encheu o celular de Joca com um milhão de torpedos desaforados, do mesmo nível que ela pensava ser a tal fulana que estava com ele!

“Então Sr. João Carlos, passando uma tarde de pecado no Motel Lamour? Eu estou aqui, eu estou vendo tudo! Você me paga, quando chegar em casa todas as suas roupas estarão na mala! Cretino!”

E se foi, cega de ódio, ruma à sua casa.
Chegando lá...que surpresa! Não é que o carro de Joca já estava lá! Na garagem! Como ele podia ter sido tão rápido? Entrou correndo em casa e se deparou com uma cena que jamais podia imaginar: Joca de calção, sentado no sofá, lendo seu bom e velho jornal.

- O que você está fazendo aí?
- Eu moro aqui, ora!
- Mas... e o motel?
- Eu que pergunto:  e o motel?
- Mas eu vi você entrando, quer dizer, era um carro igualzinho ao seu!
- E o que é que VOCÊ estava fazendo no motel?
- Eu não estava no motel, estava no salão de beleza!
- Ah sim, da mesma maneira que as vizinhas aqui da redondeza...
- Ora Joca, não fale assi...
- Chega Eva! Cale-se! Pra você: Sr. João Carlos! Não era assim que me chamava nas mensagens desaforadas que enviou? Seriam elas pra encobrir a SUA tarde pecaminosa no motel sei lá o que?!
- Joca!
- Ali estão as suas roupas, Eva, dentro da mala, como você mesma sugeriu. Não passarei a carregar uma galhada pela vizinhança como você sempre falava dos outros!
- Mas Joca! Não! Me deixe...
- Não deixo nada, fora Eva!

E o pacato Joca a empurrou pra rua com suas malas! Fechou a porta e sorriu intimamente. Caminhou calmamente até a geladeira e pegou uma champagne que havia posto para gelar logo que chegou a primeira mensagem de Eva. 

Abriu a champagne e brindou sozinho! Deliciou-se com o silencio de sua casa. Deliciou-se com aquele pequeno engano que tinha oportunizado a sua paz... o flagrante invertido que o livrou do blábláblá diário de Eva.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Poemas e Contos: Viver para sonhar, sonhar para viver

Esperando o melhor momento de seu dia, tomou um banho demorado, cuidando com carinho de cada parte de seu corpo de menina já mulher. Penteou os cabelos, passou um creme cheiroso que havia ganhado de uma vizinha, vestiu a camisolinha leve e transparente, já surrada do tempo.
Tinha 17 anos, cabelos negros e longos, pele aveludada e macia, olhos grandes e brilhantes e toda vivacidade que uma moça na sua idade possuía naturalmente.
Entrou no quarto sem fazer barulho e sem acender a luz, deitou-se com cuidado e fechou os olhos. Rapidamente adormeceu e mais uma vez foi ao encontro de seu príncipe encantado! (Sim, meninas nessa idade ainda acreditam neles, ainda que o dia a dia tente provar-lhes o tempo todo que eles não existem).
No sonho passeavam de mãos dadas, trocavam beijos ardentes e carícias de arrepiar a nuca. Ele a olhava com ternura e desejo ao mesmo tempo, a tratava como a uma princesa. Conversavam coisas bobas e fúteis, conversavam sobre as noticias que ouviam na televisão, riam fartos das bobagens que só os dois compreendiam.
Todas as noites eram assim, passavam momentos únicos juntos, ela sentia na pele seu toque tão real, sentia na boca o gosto doce de seus lábios, guardava na memória seu cheiro bom...
Amanheceu e ela acordou com o mesmo leve sorriso de sempre. Levantou com cuidado, pôs o vestidinho simples e remendado, lavou-se, botou água na chaleira para passar um café e até cantarolou sem sentir, tamanha sua leveza de alma!
Foi quando ele levantou... 53 anos, suado, gordo, barba por fazer... seu hálito que já impregnara o odor torturante da cachaça era insuportável. Sentou à mesa sem dar bom dia, esperou que ela lhe servisse o café e perguntou o que teriam pro almoço. Ela murmurou: o de sempre! Ele reclamou que ela não prestava pra nada, que mal negocio tinha feito com seu pai, que havia pegado no sono esperando ela deitar e ela nunca terminava aquele banho, a luz viria cara no fim do mês, ele não era escravo para trabalhar só pra ela, bla, bla, bla... ela apenas abaixou a cabeça e seguiu seus afazeres quando o viu levantar, pegar a carteira e sair pro trabalho.
Escolheu feijão, lavou roupa, cuidou da casa, não parou o dia todo, serviu a janta e fingiu arrumar alguma coisa até ele cair dormindo, o que não demorou muito uma vez que já tinha passado no bar da esquina e tomados umas biritas.
Foi então que ela...
...Esperando o melhor momento de seu dia, tomou um banho demorado, cuidando com carinho de cada parte de seu corpo de menina já mulher...


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Poemas e Contos: Um conto de Iemanjá!

Era fim de tarde e aquele homem de aparência rude, mãos calejadas e pele queimada do sol chegava em casa com um saco de estopa pesado de peixes que a recém trouxera do mar.
Enquanto a esposa os levava para prepará-los (uns seriam consumidos em forma de um delicioso ensopado acompanhado de pimenta e pirão, outros seriam guardados na geladeira velha, mas potente, para serem vendidos ou trocados depois), o homem toma um banho morno pra revigorar as forças.
Sentados à mesa simples, mas farta, ele, a esposa e filha conversam sobre como foi seu dia. A mulher, cabelos longos e já um pouco grisalhos, com a beleza da juventude ainda gravada nas marcas do rosto, conta os assuntos que ouvira das outras mulheres da vila, enquanto lavavam roupa num tanque comunitário. A filha, cabelos também longos, mas negros como a noite, tez clara, olhos brilhantes e viço da juventude estampado no rosto perfeito, conta o que aprendera na escola, conta sobre os meninos que já a rondam bajulando e ri farta achando graça e dizendo que um dia ainda encontrará seu grande amor e fará sua casa ali na vila!
Com um suspiro sentido e longo, o velho “pensa em voz alta” e deixa escapar uma frase que causa susto na mãe e estranheza na filha:
- Teu amor serão todos os pescadores e tua casa será o grande mar...
O olhar espantado e repreensivo da mãe faz com que o pai se cale e siga comendo seu jantar em silêncio, enquanto a filha, marota e faceira, parece nem ter escutado esse assunto.
Depois do jantar, sentados na sala em frente à televisão, distraídos com um programa qualquer, a filha lembra-se de contar fato estranho que ocorreu naquela tarde, enquanto vinha para casa:
- Pai, mãe, vocês não vão acreditar no que aconteceu hoje! Não sei como tinha esquecido de contar! Vinha para casa no final do dia, caminhando pela beira da praia, quando de repente vi um burburim! Aglomeravam-se na areia ao redor de um homem vários desses turistas que nos visitam todos os anos nessa mesma época! O homem chorava desesperado, apontando pro mar, sem conseguir dizer claramente que alguém que lhe era muito caro estava lá dentro! Num impulso, caminhei mar adentro preocupada em ver o que acontecia e quanto mais eu seguia, mais as águas ao meu redor iam se acalmando. Era tão engraçado o modo como de um minuto pro outro aquelas ondas revoltas e altas se transformavam em marolinhas! Eu ri sozinha e pensei comigo a sorte que eu estava tendo! Pois foi quando mais sorte ainda teve uma mulher que emerge na minha frente e cai nos meus braços, desacordada, mas viva! Voltei à orla com a tal mulher nos braços e todos me olhavam boquiabertos, sem dizer uma palavra. Eu achei estranho e gritei: povo, povo, me acode aqui! Imagine, pai, eu com uma mulher pesada nos braços e ninguém pra vir nos ajudar! Foi então que alguns correram na minha direção e pegaram a tal mulher dos meus braços e outros, sei lá, tão estranhos, correram de mim! Vai entender, povo doido! Só sei dizer que quando saí de dentro do mar, olhe mãe, as ondas voltaram a se rebelar! Quanta sorte eu tenho não é mesmo?!
Rostos pasmos, entreolhares arregalados, pai e mãe não deram muito assunto, disfarçando o ocorrido.
Mais tarde, já no quarto, antes de dormir, comentaram entre si:
- Sorte a dela, ela pensa... tadinha, mal pode imaginar que a sorte é nossa, por termos sido os escolhidos, não é verdade meu velho?
- É...fomos os escolhidos quando encontramos aquele pequeno ser boiando em alto mar, envolto somente por uma luz tão forte que mal podíamos enxergar... lembro-me como se fosse hoje aquela tarde em que foste comigo no barco para tentarmos mais uma rede. Que grande o nosso susto ao vermos aquele bebezinho indefeso! Maior ainda quando o retiramos do mar e ouvimos uma voz doce que vinha das profundezas do oceano e dizia:
“Eu sou Nanã e esta que tomas em teus braços é minha pequena filha, a rainha de todos os mares, a grande mãe de todos vós! Criem-na com amor e com amor eu vos recompensarei. E no momento certo ela vai retornar ao seu reino onde será feliz por toda eternidade, cuidando de cada um dos encarnados como se fossem seus próprios filhos, intuindo-lhes bons pensamentos, ajudando os pescadores na fartura de suas redes e os navegadores na clareza de seus rumos. Ela precisa viver um tempo na Terra, entre vós mortais, para entender a profundeza do ser humano e assim saber amá-lo do jeito que é, com todos os seus defeitos e suas virtudes.”
Mas não sei se podemos dizer que temos sorte, mulher, afinal, um dia ela vai retornar ao seu verdadeiro lar e nós ficaremos sem ela...
- Havemos de saber aceitar quando essa hora chegar, meu velho. Nanã prometeu nos recompensar com amor e eu confio nela, afinal, nos deu o que de mais precioso temos na vida hoje! Vamos dormir e não sofrer antes do tempo! Boa noite, meu amor.
- Boa noite, minha querida.
Apagaram a luz e trataram de tentar dormir, pois amanhã o dia ia recomeçar cedinho.
Enquanto isso, Janaina, no quarto ao lado, dormia tranqüila e sonhava com um reino de águas, onde andava vestida com um manto branco, colares de pérolas, se enxergava em espelhos brilhantes e só a paz e a alegria a rodeavam...


- Este é um conto absolutamente fictício! Eu o inventei e nada tem a ver com lendas ou a historia de Iemanjá! Apenas quis homenageá-la pelo seu dia que vem aí criando uma estória onde ela tem uma passagem na Terra!